sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Sampa Noites de Circo







Meu amigo ator ia de mal em pior, por algum motivo que beirava o inexplicável. Trabalhava em áreas de atividades culturais, até teve uma fase como atendente de call center, aqueles empregos horríveis mal pagos quase sempre de cobrança. Na verdade a sua atividade mesmo era ser ator de teatro e de estilo circense. Tinha experiencia e conhecimento no metiè também por vir de uma família de artistas de circo itinerante, um histórico de vivência pessoal nesse tipo de atividade, no palco e também posteriormente atuando em diversas peças, até como iluminador. Lembro que o conheci envolvido na área técnica numa peça chamada "Olga" apresentada no Bexiga. Um dueto tenso de atores e personalidades desdobradas, a personagem adaptada a um texto que representava o da mulher do Julio Prestes enviada para as prisões nazistas. Lembro que conversávamos mais sobre textos de teatro. Li também algumas traduções e textos dele sobre poesia, e escrevia bem, tinha essa capacidade de decorar textos e gostava bastante de poesia castelhana. Contava que foi militante de esquerda no fim dos oitenta, já tinha sido seguido pela policia ideológica antes da volta da democracia e preso por 'socialista', disse que até levou um couro dos caras do Dops infiltrados nos polos de militantes, apanhou e levou até choque deles em certa ocasião. Eu o conheci no fim do milênio, nos bares e baladas populares da noite paulistana com a minha namorada com quem estávamos rodeados de amigos geralmente, sempre tinha um bom tema de conversa na nossa mesa. Eu trabalhava na área de tradução e legendagem de filmes naquela época. Como sendo um fato comum -de familiares argentinos também- a gente tinha muito assunto até em espanhol, e minha paixão pelo cinema rapidamente nos convertia em bons conversadores. Eu gostava das suas observações dramáticas de histrionismo, dos conteúdos humanos, ele conhecia um pouco melhor aquilo que me faltava conhecer mais de perto em São Paulo que era o ambiente real de teatro jovem, principalmente daqueles que praticavam a profissão quase ad honorem por não ter uma posição econômica mais feliz, ganhando algum cache para atuar em um comercial ou num projeto de curta-metragem onde o pessoal de cinema experimentava como podia e ninguém ganhava nada. Se inscrevendo em todo tipo de bolsa ou benefício, correndo contra o tempo financeiro de quem sabe também que aposentadoria não existe nessa área como algo real, são aquelas áras que nunca existem para o Status Quo. Ser artista assim como muitos, era sempre algum tipo de provação para quem não tinha dinheiro nem contatos íntimos favoráveis, sempre é assim na America Latina. No fim a coisa toda de fazer arte por conta própria no terceiro mundo é como tentar fazer turismo na Antártida. Eu naquele tempo particularmente estava na época mais fluida de tradução de roteiros e filmes, então passava mais tempo na minha casa tentando me manter como freelancer e já enfrentando as duras crises econômicas que sempre atingem classe media e baixa como uma martelada na cabeça todo começo do mês. O Martelo de Thor esmagando tudo, começando pelos planos de qualquer um. Com o passar do tempo exhaltado e otimista estilo 'Nova Era' fruto da ilusão do inconsciênte coletivo mais imediato na troca de milênio, dos primeiros anos do século XXI. O sonho acabou um dia e 'Cacildis!': raramente sobrava aquele dinheirinho para tomar umas e conversar com as pessoas no lazer noturno paulistano, ou passear um sábado à noite escolhendo para onde ir, sem preocupações maiores no tempo livre. Naqueles tempos incertos meu amigo parou de frequentar por um tempo a minha casa -que também de vez em quando ficava com visita até de madrugada na área de serviço- No entanto, uma vez o encontrei por ai. Estava diferente da última ocasião: bem mais magro, com expressão de exausto no olhar e cada vez pior vestido.

Apressado e nervoso sem um motivo aparente, ficava difícil esticar conversa sem que ele parasse de repente deixando a conversa no ar, o olhar pro nada, sorrindo para não sei o quê. Lembro de uma ultima vez que veio em casa e assistimos um filme muito bom, comentamos os fatos e questões artísticas, narrativas, plasticas e atorais notáveis, tomamos chimarrão e rimos muito. Mas o semblante dele de fato já não era mais o mesmo, e foi naquela época que começou a me falar daquela religião ou culto, era tipo alguma disciplina espiritual oriental de um tipo de budismo japonês, onde é necessário repetir algum tipo de mantra e até comprar uma estrutura específica chamada de oratório que não era peça barata de se adquirir. Achei estranho um ateu convicto que tinha traduzido Neruda de repente me falar em religião de um modo tão inusitadamente condescendente e ainda juntando grana que práticamente nunca tinha pra comprar aquela espécie de altar. Durante outra ocasião, notei mais uma peculiaridade preocupante, apareceu carregando uma tosse seca cada vez mais insistente, mencionou que "ia no médico sim". Contou que quase tinha pego pneumonia, "que as gripes paulistanas" com "o tempo que muda sempre" e tal, que devia regular melhor as horas de sono, comer melhor, fumar menos.





Eu tinha voltado dos Estados Unidos em 99 -após um tempo fora do Brasil- e após um período não muito definido tentava me virar na profissão de tradutor e legendador, tinha conquistado certo nome entre os tradutores de espanhol numa empresa grande e distribuidora de midia, e posso dizer que tive alguns anos auspiciosos, juntei entusiasmo suficiente achando que tinha conseguido finalmente estabelecer um oficio viável, numa situação também economicamente viável. Não imaginava que essa primavera para tantas profissões como a minha duraria tão pouco, e afinal seria ignorada e não considerada a própria valorização do ofício. Enquanto não percebia o "tsunami" laboral que estava chegando, assistia e traduzia muitas longa-metragens e documentários, aprendia o ofício de entender e até montar roteiros, ler os lábios dos atores sabendo exatamente o que diziam até com som ruim. Aprendi o timing e sequencias das partes dramáticas mais fortemente narrativas de um filme dividindo partes importantes e secundarias velozmente, desfrutava de muitos clássicos que iam parar na minha mesa. É bastante constrangedor ver com o tempo que o oficio ou profissão relacionado a cultura artística e informação relacionada dependem também de como compreende a sua própria cultura geral um povo ou comunidade, caso contrário não ocorre o intercambio apropriado. Nossa sociedade e cultura costumbrista voraz e insegura de consumo caprichosos e tendencias apenas consumistas faz conque facilmente tudo vire produto rápido e para veloz entretenimento; mas essa magnifica opção em "nações emergentes" do antigo colonialismo -ocorrendo em povos e nações de idiossincrasia adolescente-, é sempre um processo notavelmente mais penosos e contraditório que em outras latitudes mais economicamente afortunadas e resolvidas, ou quiçá poderíamos dizer culturas "antigas".

A crise moderna me espreitava mostrando primeiro algumas 'armas e poder de fogo' contra mim, jogando sinais sutis, a classe media trabalhadora fica sempre ao descoberto não importa qual gestão ou hábil político estiver tocando o barco do poder executivo, qualquer avanço da crise vai bater de frente pra esse lado, desengonçando o dia dia de quem paga contas extorsivas, vivendo no limite. É assim e sempre foi, sempre tem os esquecidos. Eu com minha família por ai em princípio não tinha essa preocupação tão marcada porque mesmo vendo meus pais -com uma atividade profissional realmente intensa, meu pai na informatica e a minha mãe nas letras e docência- sempre enrolados com as contas porém saiam para frente de um jeito ou de outro. Meus amigos já frequentavam menos minha casa vendo que a minha disposição social diminuía e minha preocupação com tudo no geral aumentava, discussões de casal mais frequentes. É claro que muitas pessoas são apenas 'amigos' das noitadas e desaparecem quando farejam a realidade, mais o Jorge sempre me visitava quando podia e como típicos herdeiros da cultura argentina não faltava um bom chimarrão e conversas que rapidamente ficavam hilárias

Minha percepção básica também me alertou de uma decadência geral nas coisas, nas pessoas, da farsa das situações, de como realmente as pessoas são além do discurso, da presença do simulacro. Como sempre acontecia nessa maçante "comedias das equivocações da vida moderna",  meu instinto de conservação deixava mais aguda a minha atividade mental e sensibilidade, insistindo independente do meu estado de cansaço mental.

Só que um tempo depois, para minha surpresa, meu amigo ator apareceu com uma sonda artificial de drenagem de um pulmão insertada nas costas. Ele andava com isso como se fosse nadinha amarrado nas costas, então comecei a suspeita de tuberculose, estava cada vez mais magro e continuava fumando, saindo à noite, rindo de tudo. Mas aquela risada me parecia meio falsa, de certa forma talvez eu ouvi ele rindo de verdade anteriormente e notei como essa nova risada era mais um escape, fugir da própria condição. Coisas que só amigos podem notar, poderia se dizer. Outra coisa que notei foi que estava mais irritável com tudo, com as coisas, a politica, a economia, o que for que ia mal no país, e como a lista de coisas ferradas é sempre extensa seu discurso revoltado passava. Só que havia uma tácita questão pessoal onde podia se ver que ele estava perdendo aquele antigo otimismo e isso era uma coisa que para mim era cada vez mais evidente, aparecia como uma sombra que ia caindo por cima de tudo, por cima de um clown, deixando o palhaço com um rosto de desolação e desespero contido.





Então comecei a suspeitar que ocultava coisas dele demais, e também seu aspecto ia decaindo dia a dia, até aparecia com a pele machucada. Já a essa altura morava numa espécia de ocupação com a mãe e não se sabia se seriam despejados ou era apenas um outro "favor" de um conhecido por mais um tempo. A mãe dele argentina, já idosa, me disse uma vez que ele tinha "perdido a felicidade". Eu estava preocupado porque era uma farsa e não se sabia exatamente onde ficava o centro da questão. Um dia fiquei sabendo que ele estava internado grave pela condição pulmonar. Quando fui vê-lo estava mais magro ainda e cheio de tubos e sonda, num pavilhão da Santa Casa. Conversei com a medica e me explicou que estava com uma doença pulmonar mesmo, perguntei se ele tinha HIV mas ela disse que não, que era uma condição pulmonar por uma bactéria ou coisa parecida. Fui vê-lo varias vezes no hospital, aqela sala grande tinha junto na mesma sala vários casos terminais, pessoas com a cara praticamente verde, ao ponto de alguns leitos ficarem vazios rapidamente de um dias para outro.

Aí estava ele, deitado com a barba crescida parecendo um Dom Quixote conversando comigo enquanto eu contava piadas ele não podia nem rir muito porque realmente estava muito mal. Ele continuava sua interpretação, bravo contra todos contra o sistema e o corpo médico, queria sair rápido do hospital. Nunca tinha visto essa condição tão misteriosa, mas afinal, nada deteria o resto. Depois de uns dias teve alta, mas voltou de novo, suas pernas tinham inchado como balões por causa de uma grave falência renal.




A Morte estava já presente abrindo as asas escuras com todo aquele implacável sorriso triunfal, só esperando pelo último assalto.

Teve duas coisas que me deixaram em um ipo de alerta paralisante, pensando, no hospital ninguém me informou que estávamos no pavilhão dos terminais, e só durante o velório dele consegui saber que tinha um monte de doenças espalhadas por ausência quase total de defesas no corpo, plaquetas no sangue. Só depois disso todo entendi que havia escondido a terrível condição até o final e se abriu totalmente para a morte achando que -sei lá- seriamos tão facilmente enganados, e que infelizmente as leis idiotas de "sigilo" também escondem almas dilaceradas suicidas que fecham as portas da auto-observação responsável resiliente, psicologia, terapia e recuperação, considerando também a compreensão espiritual. Uma estranha e penosíssima estranha e surrealista eutanásia, rezando inutilmente em uma pantomima perante a dissolução. Só aquele dia consegui ver o que acontecia, aquele simulacro disfarçado de sorriso de palhaço, a questão toda. Fiquei até de manhã no cemitério sem me importar com chegar tarde no trabalho, se é possível definir que estava meditando sobre toda essa complexa 'saga do fim'. A expressão dele no caixão era de alguém completamente exausto que tinha sido arrancado do reino dos vivos por um golpe sangrento e desgarrador. Seu misterioso e tão cuidadosamente estranho secreto que motivou a negação da realidade que o condicionava, guardado a sete chaves. Amaldiçoado e sorrateiro secreto que o fez renunciar as coisas da vida,  permanecerá sempre na escuridão. Nem o vento que sopra entre as árvores e as lapides o conhece.


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