I - Uma Aparição
A criança imaginativa e sonhadora Evelyn fez nove anos naquele inverno paulistano, que era especialmente frio na temporada. Ela morava com os pais numa casa bem antiga e grande no Alto de Pinheiros. Sendo filha única geralmente passava toda a tarde sozinha voltando da escola enquanto a empregada-babá Lucilene preenchia todas as necessidades práticas de uma casa e ritmo de vida de um casal bastante ocupado, um empresário que conduzia uma fabrica de tecnologia na Raposo Tavares e uma psicóloga renomada no seu próprio círculo com um consultorio em Pinheiros.
Os pais da Evelyn discutiam bastante demais naquela época, e com certeza a pequena não entendia bem porque tanta alharaca sem sentido. Eram talvez coisas consideradas normais na sociedade, ou mesmo normal para pais modernos, mas a pequena percebia naquilo tudo uma inexplicável e irracional desordem naquilo. Percepções claras das crianças. Quantas coisas consideradas normais na sociedade são quiçá tão inecessárias.
Todos os dias da semana saiam os três, pai, mãe e filha para a escola, o consultório e a estrada para a fábrica, respetivamente. A pequena Evelyn voltava pra casa na perua da escola, a babá a recebia e trancava em segurança o enorme portão. O cachorro lavrador Tobby a recebia feliz, e a Evelyn ficava entre jogos, brinquedos e imaginações desenvolvendo toda a sua criatividade como podia.
Perto da Páscoa, começou a fazer aquele friozinho paulistano, e no casarão da família havia alguma sensação que qualquer um perceberia, certa coisa inexplicável, uma espécie de "áurea" estranha e pesada, como se alguma coisa sinistra quisesse possuir o espaço, rondando o casarão. Como se houvesse um exército sombrio disposto a atacar, murmurando nas trevas.
O casarão de Pinheiros tinha sido construído por volta de 1889 e os donos eram comerciantes portugueses que tinham viajado o mundo inteiro. Existia um antigo porão com uma parede com dispositivo de duplo compartimento bem dissimulado, lá havia uma caixa do tamanho de uma mala continha certos objetos muito raros e antigos, entre eles duas placas de bronze com uma pça adicionada como fechamento por volta, do tamanho de um prato pqueno com umas inscrições bastante apagadas. A empregada que achou o compartimento chamou o pai da Evelyn e assim encontrarm aquela caixa de madeira empoeirada, aparentemente o pai dela tentou abrir aquelas placas porém sem sucesso. Aquela peça remontava a tempos muito antigos e eles nem sabiam, assim ficou guardada, mas ninguém sabia que carregava uma perigosa força sinistra que estava sendo de algma forma manuseada. Desde a época do achado do objeto a casa da família começou a adquirir um ar pessado e oscuro, como se as luzes não bastassem para iluminá-la. Tiveram que convencer a empregada para não pedir demissão. O casal brigava sem motivo. De noite parecia que havia mais escuridão que o normal. Sombras, luzes fátuas, pareciam se mexer rápido de uma forma imperceptível. Evelyn com frequência ia rápido para a janela após sentir que havia gente no pátio, no gramado. Não tinha ninguém, mas tinha certeza que ouviu alguma coisa como "conversas abafadas" lá fora, e de várias pessoas ao mesmo tempo. Na noite seguinte, acordou em sonhos, confusa, tinha suado muito. De novo tinha sonhado com presenças e conversas no gramado em volta da casa, perto das janelas, conversavam provávelmente em algum idioma desconhecido e não dava para identificar ninguém, nem o que diziam mesmo. Outra vez, dirigiu-se à janela. Não tinha ninguém, e as nuvens realmente estavam estranhas. Pareciam pintadas por um artista maníaco, desvariado, eram realmente nuvens irreais, tinham partes tão escuras que pareciam que iam cair como bloques megalíticos de rocha de basalto sobre as pessoas.
Aquela amiga imaginária dela naquele inverno voltou a aparecer. Aos oito anos Evelyn tinha a ´melhor amiga imaginária´, parecia que tinha assistido muito "Charlie e Lola" e gostava da personagem Soren Lorensen, o amigo imaginário da adorável e poderosamente imaginativa Lola.
-Oi Evelyn lembra de mim?-
Evelyn assustou um pouco porque a expressão da Lisa estava diferente daquela que conhecia, parecia mais séria, certamente sombria ou abatida. No entanto, depois de segundos começou uma agradável conversa com a sua amiga imaginária. Parecia que elas se conheciam muito, e que tinham conversado em sonhos muitas vezes. Só que agora quando ela contou isso para a mãe Lourdes, a psicóloga profissional sentiu que tinha um assunto complexo e um baita desafio. Seria a filha uma menina excessivamente sonhadora ou quiçá hiperativa? Mesmo com tanta informação disponível, infelizmente muitos pais considerados modernos hoje ficam facilmente confusos com os filhos, porque naturalmente com muita boa intenção querem proteger e preservar, foram preparados e advertidos a vida toda para atender essas necessidades, mas quando temos que analisar manifestações de imaginação-poder pessoal e o descobrimento de novas capacidades, ou mesmo qualquer crise emocional o assunto espiritual geralmente perdemos o foco e sem saber o que fazer. A distancia entre apenas ser pais e sabe usar experiencia mesmo ou atuar como neo-sábios poder variar muito. É certamente complicado para um adulto moderno encarar as dúvidas, assuntos e diversidades da mente de uma criança quando o pró
Evelyn passou as próximas semanas conversando as vezes com a Lisa, enquanto a mãe tentava tirar alguma informação e tentar ver da onde vinha essa imaginação de lidar com uma amiga imaginaria com essa idade avançada para isso. Um dia, de repente no cafe da manhã Evelyn perguntou à mãe porque ela tinha "desistido de ser jornalista e mudou de faculdade, para aquela do centro, se tanto gostava de jornalismo". A mãe ficou pasma, literalmente gelada, com certeza nunca tinha comentado isso com a criança, era uma antiga dívida ou mágoa oculta no seu coração, tinha abandonado o jornalismo quando de jovem o pais estava sob regime de ditadura, de fato ela ficou com medo de seguir essa profissão. Como a filha sabia disso, de uma questão tão adulta e ao mesmo tempo tão íntima?
"A Lisa me contou, ela sabe tudo sobre você e o pai"
A mãe brincou nervosamente, quase com a voz trémula: "Filha, agora queria conhecer mesmo a sua amiga imaginária"
"Não precisa imaginar está bem atrás de você"
A mãe da evelyn sentiu um calafrio e de repente uma mão geelada a tomou pelo braço, passou a mão pelo hombro e a deixou, mas nao havia ninguém lá. Ela deu um pulo, ficou pálida mas decidiu fingir que estava brincando e rindo. Foi assim que mã e filha, as duas riram, só que cada uma de algo diferente e só uma estava rindo mesmo: a outra estava estranhamente apavorada. Estava começando a sentir o mais puro medo. Sua mente concluiu que o lugar realmente podia estar mal assombrado. E tudo ficou pior quando Evelyn solicitou sair da mesa e ir para o quarto, e a mãe da Evelyn sentiu um barulho inconfundível de passos detrás dela, no lugar apontado pela sua filha, onde estaria a Lisa. Mas não havia nada. Quer dizer, era isso o que a mãe acreditava e agora começava a duvidar.
Estava convencida ou querendo se convencer de que sofria de algum forte estresse ou disturbio psíquico, ou quem sabe a família toda precisaria de terapia. Decidiu que consultaria uma colega amiga dela para poder se aconselhar. No consultório da colega, Laura, a mãe da Evelyn começou a levantar assuntos confusos, onde a fachada de perfeição bem sucedida na carreira e na vida pessoal tinha muitas contradições. Não conseguia explicar como era que Evelyn sabia da sua frustração na universidade, o único que sabia era Paulo, o marido. Ao lembrar do fato, imediatamente abandonou as consultas na segunda sessão, acreditando que o próprio pai tinha contado isso a filha, muito desapontada com ele.
"Você não devia ter contado um assunto meu tão intimo, ela só tem nove anos"
"Eu nunca contaria, não faz o menor sentido"
"Essa sua mania de ser sincero e bondoso é que te leva a fazer essas besteiras. Não se mistura assim o mundo adulto com o de uma criança! A sua filha ainda tem uma amiga imaginaria com quase dez anos e acha isso normal?"
"Espere, você agora está discutindo por outra coisa, achando que contei... na verdade nem lembrava mais disso. Por quê ia contar?"
"Porque você não presta atenção nas coisas, aí ta vendo? Deve ter falado sem perceber!"
"E qual é o grande problema de tudo isso afinal?"
A discussão sem sentido algum continuou por uns 40 minutos. Resumindo, Paulo não entendia porque tanta preocupação ou raiva da Laura, ela tinha certeza que a culpa era dele mesmo porque era um desastrado, e soltava os cachorros. A imagem de uma psicóloga 'superada' e 'resolvida' contrastava muito com aquela mulher a beira de um ataque de nervos. Evelyn ouviu a discussão e a Lisa, junto com ela, afirmou:
"Seus pais estão discutindo porque na verdade estão quase se separando"
"Eles vão discutir por minha causa?"
"Não, mas vão tentar te culpar um dia, vão pensar mas não disser"
"Como assim?"
"Os adultos são assim mesmo"
II - Sono repentino e sobressalto
Um dia Evelyn voltou da escola mais cedo, a perua deixou ela em casa como sempre. A Lucilene estava trabalhando nos afazeres domésticos, a escola já tinha avisado a mãe também. Evelyn ficou na parte de cima, no quarto. Queria saber se a Lisa ia aparecer aquele dia, mas ninguém aparecia mesmo. Ela já duvidava de tudo, mas a Lisa era muito atenciosa com ela, contava historias e estava sempre contente, sorrindo, Aquela companhia parecia tão real, era real! Pensava Evelyn, achava muito injusto os pais não aceitarem que a Lisa era mesmo um alma ou fantasma que se disfarçava de 'amiga imaginaria'. O que era mesmo afinal? Evelyn estava um pouco sonolenta aquela tarde, mas não sabia se era por causa do almoço, ou quiçá por acordar cedo todo dia. Ela deitou na cama do seu quarto, cochilou e teve um sonho.
Estava num mundo estranho, não havia qualquer casa ou construção, havia neblina, parecia estar ao relento. Estava paralisada, não podia falar e queria gritar, pedir ajuda naquela solidão enorme, parecia estar perdida no meio de um deserto. De repente o cenário parecia mudar, soprou um vento forte e ela ficou com muito frio. Foi ali que a Lisa apareceu no sonho, só que era uma versão dela muito ameaçadora, tinha um sorriso quase diabólico.
"Oi Evelyn"
"Você parece a Lisa"
"Eu sou a Lisa"
"Não, não é, você só quer se parecer a ela, ela é legal"
"Eu sou a verdadeira Lisa, a outra é a falsa. Eu sou sincera, a outra, mentirosa. Ela quer brincar com tolices, eu falo a verdade..."
"Mas o que é? Me diga o que esta acontecendo!"
De repente Evelyn estava gritando sozinha na cama, empapada de suor. Só lembrava da expressão assustadora da Lisa, nunca tinha falado nesse tom com ela, nunca teve aquela expressão nos olhos. Era um tipo de sono muito enigmático para ela. Estava confusa, já não sabia mais se a Lisa era produto mesmo da sua imaginação ou uma entidade. Só que aquele dia tinha prova, e acabou esquecendo aquele sonho revelador. Não podia deixar de estudar, e era uma matéria que até ela gostava um pouco, geografia, e por causa disso consegui completar a tarefa em certo modo, facilmente.
Naquele dia seus pais vieram mais cedo, era sexta-feira. A mãe dela começou a cozinhar para a janta. A Evelyn, da janela do quarto viu no jardim a Lisa, estava de pé e de costas para a casa. Então finalmente a Evelyn lembrou, a Lisa tinha falado num sonhou que ficou muito assustador para lembrar porque a cara da Lisa ficou muito deformada. Sói que agora ela lembrou, a Lisa estava mentindo, não era nenhuma amiga imaginaria. era o espirito de uma criança que tinha morrido, da família que habitou a casa havia anos.
A janta estava quase pronta, e a mãe da Evelyn chamou o pai para por a mesa. Ele desceu as escadas enquanto Evelyn tinha o olhar fixo no jardim.
"Pai, mãe, ela está sendo controlada por uma força muito mais poderosa, e quer que nós abandonemos a casa. Por isso está perturbando, e não vai parar. Temos que ir embora, senão ela vai nos machucar." Evelyn saiu correnco e abriu a porta da casa, disparou a corrida até a rua mesmo, os pais sairam atrás dela. A criança abriu o portão e correu para a rua. No momento em que os pais a alcançaram, a casa inteira começou a pegar fogo como se de repente tivesem sido encendidas tochas escondidas, explosões de fogo de outras cores esverdeada, amarela e laranja sairam pelas janelas espalhando um cheiro horrível. Mesmo querendo retornar e fazer alguma coisa, foi impossível porque a rapidez totalmente anormal do fogo aumentar fugia de toda explicação racional. Ficaram do outro lado da rua assistindo a devastação das chamas. Uma sombra enorme em forma de nuvem começou a sair junto com a fumaça. formando uma cobertura gigante por cima da casa queimando. As pessoas sentiram uma sensação desagradável como de choque elelétrico nos dentes e gengivas a cada latido das cabeças da Gárgola, os aparelhos eletrônicos pipocaram um pouco e logo desligaram; Toda a energia elétrica do bairro acabou no ato. Formas enormes de luz parecidas com raios explodiam até as alturas do céu. O solo tremia ao redor de quatro quarteiróes, um som sinistro similar a um coro de muitas vozes saia da casa. Criaturas monstruosas escuras parecidas com morcegos gigantes, -em torno de oito ou dez- começaram a sobrevoar os arredores. Uma figura maior em torno de vinte metros de altura, surgiu das chamas e ficou em pé, uma morfologia de reptil como se fosse um tipo de Gárgola, um lagarto com asas de águia e com muitas cabeças de lobo ou cachorro. estilo Cérbero. Os latidos infernais ecoaram, as paesoas se escondiam nas casas e apartamentos. E foi ali que aconteceu a maior das surpresas, Evelyn siu correndo em direção à casa e ao monstruo gigante alado, parou bem de frente para as fauces dos câes que se voltaram para ela, e gritou em voz bem alta: -Uktalar! Quem mandou você se soltar e andar por ai? Você sabe muito bem que esse não é o seu mundo! Em nome das Entidades Máximas do Poder dos Sacerdotes de Lagash, Eu Ordeno que você, Uktalar o Magnífico, volte imediatamente para seu descanso na Caixa Selada de Uruk-Bahal! Agora! Evelyn levantou as mâos de repente e olhou para o céu, os pais dela e os bombeiros que tinham chegado não podiam acreditar no que viam, duas equipes de bombeiros paralizadas de terror e nojo ao mesmo tempo por um forte e desconhecido cheiro. A mãe dela não aguentou e desmaiou. O enorme demônio assírio de dez mil anos abaixou as cabeças como em sinal de "reverência e obediência", baforando um fedor práticamente insoportável enquanto Evelyn o olhava com firmeza e total indiferência. Desta maneira foi desaparecendo em direção ao centro das chamas, recuando como um cachorrinho frente ao dono -incluindo as asas coladas ao corpo- junto com uma enorme coluna de fumaça e névoa pesada, aquela escolta de demônios alados que o acompanhavam também voltou para desaparecer junto. Após não deixar rastros visíveis, a energia voltou as casas. Ninguém nunca mais viu aquela esfinge inferal que tinha tomado forma de criança fingindo ser um tipo de "amiga imaginária" e passado o trauma a família superou os acontecimentos, se mudaram para outra cidade após perder quase todos os pertences. Recomeçaram uma nova vida. O que os pais da Evelyn não conseguiam entender era cómo foi possível que ela soubesse deter, comandar e expulsar a entidade com um conhecimento tão preciso de suposta erudição e alquímia ocultista que nos tempos antigos seria equivalente a um Mago ou Sumo Sacerdote de altíssimo escalão. Evelyn disse para seus pais apavorados que não sabia ou lembrava de nada, não tinha a mínima idéia dos acontecimentos fora o incêncio da casa. Insistiu que não lembrava nem o que fez, nem mesmo o que falou naquela ocasião. Os diversos psicólogos infantis e psiquiatras não conseguiram esclarecer nada após numerosas sessões de terapia. As únicas pessoas que superaram o terror e conseguiram filmar com os aparelhos celulares a clossal Gárgola de "muitas cabeças" foram três jovens, e suas filmagens foram elogiadas técnicamente no mundo nerd, por especialistas em cinema e animação, e ao mesmo tempo acusadas de montagem e forjar propositamente um magnífico fake. Cada um deles, sofreu diersos supostos acidentes fatais, um acidente de carro, um afogamento e uma queda de um prédio, e todos os três estavam mortos num período de dois ou três meses. Appós algum tempo o assunto foi caindo no esquecimento e ma melhor das explicaçôes, naturalmente, foi a de "montagem" e a pedido da família as imagens foram retiradas das redes pela justiça.

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