sexta-feira, 4 de maio de 2012
Feitos da Matéria dos Sonhos
Existe uma velha discussão entre sociólogos das últimas décadas, e essa controvéria parece reunir ou resumir nosso dia a dia dentro do que sabemos que somos e o que ainda, não sabemos: "O erro na suposição de que qualquer liberdade do querer -como quer que seja entendida- é idêntica à irracionalidade, da ação ou de que a última é condicionada pela anterior, é obvio. A caraterística da "incalculabilidade", igualmente grande, mas não maior do que as 'forças cegas da natureza' é privilégio do louco. Por outro lado associamos a medida mais alta de um empíirico 'sentimento de liberdade' com aquelas ações que estamos conscientes de desempenhar racionalmente- isto é, na ausência de 'coherção' física e psíquica, de 'afetos' emocionais e disturbios 'acidentais' na clareza de julgamento em que buscamos um fim nítidamente conhecido através de meios que conforme o alcance do nosso conhecimento lhe são os mais adequados." Sempre que procuramos refletir seriamente sobre essa urgente e incerta situação em geral do pensamento em geral do grupo humano na modernidade, encontramos os mesmos conflitos aumentados ou que só mudam de aparência. Pessoas agem tomando desições, se confirmam ainda mais essas questões, está evidente por exemplo na exacerbada controvérsia comprometida pela multiplicação dos meios tecnológicos de comunicação e ausência de rigor reflexivo em geral das pessoas que se omportam como turba e 'multidão cega e perturbada' pela internet-, da complicação constante dos assuntos importantes da modernidade e que junto ao progresso e processos lentos evolutivos parecem sempre atravessar o destino positivo social e o indivíduo -e com mais força atinqe quem não investe em se prevenir na precariedade- e assim chegam novas dificuldades perturbando a sociedade humana durante certos períodos. Crise da economia e recursos, desemprego e recessão; a condição humana sob os aspectos da situação integral das nossas vidas terrenas, relações, profissões e demais. Estabelecendo que, a procura pelo progresso pessoal mas também de uma melhor sociedade, do estado de cada pessoa, da mente e imaginação, dos sonhos que nos impulsam, lembro de algo que disse Jorge Luis Borges, numa Conferencia lá pelos anos '70, na Argentina:
"Temos essas duas imaginações: a de considerar que os sonhos são parte da vigília, e a outra que é esplêndida, a dos poetas, a de considerar que toda vigília é um sonho. Não há diferença entre as duas matérias, assim como afirma Groussac: não existe diferença na nossa atividade mental, podemos estar acordados, podemos dormir e sonhar e a nossa atividade mental resulta a mesma, e cita, precisamente aquela frase do Shakespeare, 'Somos feitos da mesma matéria que os sonhos'. Um sobrinho meu tinha costume de me contar os sonhos, sabia que eu gostava de ouvi-lo, 'sonhei que estava perdido numa floresta, achei uma casinha branca, de madeira, com uma escada que dava voltas e pela porta da frente de repente você saiu. O que é que você estava fazendo ali? Para uma criança tudo ocorre no mesmo plano, vigília e sonho. O poeta austríaco Walter von der Vogelwide, disse:
"Sonhei a minha vida ou foi mesmo um sonho?"
Jorge Luis Borges.
Naquelas épocas dormia profundamene e mais horas em ambientes geralmente mais silenciosos que nos dias de hoje. Desta forma era mais provável para mim atingir o estado de sono conhecido como alfa, ou "muito profundo". Acontecia com frequência algo certamente bem peculiar, muitas vezes enquanto sonhava não tinha percebido que estava acordado ainda dentro do sonho. Estava de fato entre mundos metafisicos, na fronteira entre a mente em repouso com o "espaço" além dos portais dos sonhos comuns. Então de repente fiquei ciente de estar observando a realidade de uma perspectiva tal que ainda permanecia "ensonhado". Percebi sem dúvidas, que de fato existe uma realidade intermédia transitável, e até ampla, da região intermédia entre sonho e vigília, uma classe de constatação metafísica. Eu estava de fato voando com uma altura de oito metros e subindo mais, dentro das medidas referencias que me permitiram fazer esses cálculos. Fiquei com uma mistura de medo e curiosidade, por uns segundos sentia o ar passar rápido pelas narinas, não podia nem respirar pela boca de tao forte que era a queda. Estava com medo até de ter saído do corpo e nunca mais voltar. Ia literalmente desmaiando quando vi o chão se aproximar. Mas nada aconteceu, parecia que pulei de 15 centímetros e assim mesmo sentia os músculos das minhas pernas latejar e formigar, como se tivesse tentado amortecer o impacto da queda de muita altura.
Teve uma outra ocasião, uma situação onde realmente duvidei mesmo da concepção da realidade. Acredito que seria o ano 1991, ou 1992 no bairro de São Paulo chamado Rio Pequeno. Era uma casa perto de uma rua chamada Joaquim Seabra. Lembro que havia vizinhos barulhentos de manhã, tipo uma avô xingando os netos pestinhas que faziam bagunça. Eram dias de muito transito até o trabalho e chegar tarde de noite, dias tensos na cidade onde a nível segurança sempre foi confusa, dependia de quem maneja o poder entre a constante guerra da bandidagem vs policia, corrupção solta e governantes sorrindo na tv. A classe politica sempre fazendo "o mínimo possível" em situação amplamente confortável em comparação ao sofrido cidadão comum. Sair na rua também para os jovens à noite que quisessem se divertir ou socializar, por vezes um desafio a lógica. Lembro disso porque tivemos que nos desfazer de um cachorro que de tão neurótico não nos obedecia mais, parecia representar o próprio caos da sociedade brasileira paulistana. Bem, tudo isso é um esforço para ilustrar um pouco a realidade que me rodeava naqueles tempos, eu procurando também emprego e novas perspectivas com certa entendível pressão dos meus pais que mal pagavam as contas para ver se algum dia teriam casa própria, e a preocupação de ver que eu demorava para encontrar um futuro mais seguro e firme nos oficios, estudos. Assim minhas noites muitas vezes eram com certa insonia, algumas vezes lembro de ensaiar um jogo de flight simulator como piloto de um bombardeiro estratégico Stealt na região de Murmansk em plena guerra fria, com um painel realista de instrumentos, num suposto conflito mundial, e também muitas outras vezes enfrascado nas minhas leituras que na época iam entre o caminho do guerreiro seguido à risca pelo Carlos Castaneda no mundo dos bruxos e o lado ensaísta do Aldous Huxley nas suas observações das eminencias pardas ou o futuro da sociedade humana.
Uma noite sonhei literalmente que saia do corpo, como um balão flutuava pela casa me arrastando pelas paredes, lembro da luz da luminária da sala. Ia me impulsionando como um balão mesmo, era exitante e de certo modo estava com medo, conseguia atravessar janelas pelo vidro fechado, tanto que sai ao exterior da noite estrelada de lua. Isso durou mais ou menos mais duas noites, sendo que na segunda aprendi a me empurrar pelas paredes tocando o teto, fui ver meus pais dormindo, e para minha surpresa, me vi a mim mesmo dormindo! O medo aumentou. estava na duvida de estar morto ou vivo. Era mesmo um sonho? Parecia a visão de um Peregrino Espiritual que aprendeu a voar, ou teve as primeiras aulas. Um ultima vez experimentei essa incrível liberdade, flutuar como balão pela casa como se estivesse nadando "crawl" pelo ar, como se fosse um mergulho de peixe pelo ar mesmo. Saí pela janela golpeando o vidro com o ombro, e atravessando o vidro sem rompe-lo como se fosse feito de bolha de sabão. Voei por aquele bairro vi até o céu estrelado, perto de algumas casas vizinhas, e de repente alguma força me puxou de volta: de novo estava no meu corpo no meu quarto, molhado de suor e com certa sensação de alivio porque agora estava novamente, no meu corpo físico. Ficou aquela sensação de perceber que aquilo não foi exatamente um sonho ou produto de uma projeção complexa da minha imaginação. Essa vivência especial deixou uma impressão muito forte sobre mim como pessoa de experiência, meu mundo interior tinha se manifestado com poder definido, meu mundo numinoso -aquele que levamos conosco pela infância-, e o mundo concreto que parece querer sempre apaga-lo, finalmente e livremente tinha se manifestado, e me dado algo como sendo um presente de poder de visão, ou apenas uma nova perspectiva metafísica do misterios do espíritu. Se somos então feitos da mesma materia dos sonhos, o que somos então em verdade? Teriamos que redefinir a nossa natureza antropológica se quisermos observar a nossa realidade concreta? O conhecimento moderno dentro dos seus limites demarcados faz fronteira com essa metafísica indefinida na 'terra de niguém' quiçá entre supostas "camadas de realidades paralelas". Quem sabe na viagem do espirito, no que entendemos hoje na nossa cultura sobre aquilo, no fim estamos aprendendo e considerando abertamente algumas questões relativas as "Portas da Percepção" temática e aspectos abordados pelo místico William Blake.
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