A tormenta não tinha chegado ainda, mas os cães já tinham sido soltos dos canis.
Os grupos da Comissão Organizadora chegavam enviados dos setores nacionalistas radicais do partido, cheios de si. Assumiam controle das instalações de segurança da região dos arredores do aeroporto com ordens especiais do general Ordóñez, encarregado da segurança junto com outras duas figuras fortes do partido que queriam fazer a 'limpeza' de comunistas.
Ordóñez tinha dado uma entrevista na televisão, cedida para um canal conhecido. Aquele dia estava sorridente e até simpatico, dando imagem de seriedade, o clima estava muito tenso porém tinha que mostrar uma aparência adequada na frente de telas. Um rosto com bigode clássico de moda naquela época usado pelas forças policiais e armadas: um homem de rosto redondo e quase todo calvo e obeso, de grandes sobrancelhas -e óculos fundo de garrafa- que terminava em costeletas proeminentes. Seus superiores, de rostos desconhecidos, precisavam manter as aparências distantes de qualquer preocupação ou suspeita de ilegalidade, nada no pouso daquele avião tinha que provocar preocupações sobre qualquer conflito.
As brigadas nacionalistas do partido, conformadas na maioria por sindicalistas corruptos que viviam de caixinha e como funcionários fantasma e facínoras contratados, ultra-direitistas à paisana conformando uma brutal tropa de choque disfarçada de legalidade, invadiram postos de comunicação e encararam as unidades da polícia com total arrogância. Uma baforada infernal os acompanhava. A direita peronista desplegou uma quantidade enorme de parapoliciais para preparar a apoteótica afirmação de "superpoderes". Quando chegaram perto do acesso ao aeroporto ficaram mais nervosos, porém ninguém tinha suficiente autoridade ou vontade para os deter. O cartão de apresentação era a intimidação. Vestiam gravatas e camisas; jaquetas de couro, muitos deles tinham cabelos empastelados, óculos e as típicas costeletas enormes como que já sendo emblema estético setentista como aquelas calças 'boca de sino'. Eles sabiam que tinham apoio total do Partido e asesores, e os caras da chamada 'institução política' e sindicatos tinham como mexer os paizinhos e falar com pessoas influentes, não interessava se o país estivesse sob os militares ou com um presidente eleito por voto. Isso sempre foi assim desde que o General fundou o movimento, e agora seria desde o movimento que a proteção e volta ao poder do General seria arquitetada. Mesmo havendo sido um partido populista de direita se rachado em uma poderosa e crescente esquerda revolucionária identificada com as questões socias sempre adiadas no continente, e o paíscom tanto 'eletrochoque político' queimando as mentes desde o fim das guerras mundiales -onde o fantasma da Guerra Fria fabricava monstruosidades e relativizava qualquer ideologia política- também continuava dividido em arcaísmos e preconceitos dentro de verdades aprisionadas sem poder de voz, de opinião. Tempos de novas ideias e conceitos de liberdades ou de repressão intermitentes tinham deixado marcas profundas de confusão, raiva e gargantas fechadas. Podiam brigar entre eles qualquer hora, mas por enquanto, quando tomaram controle da segurança do aeroporto, eram um grupo unido dentro de uma panela de pressão.
-Vocês vão embora. A gente vai tomar conta da segurança do evento, somos da Comissão Organizadora-.
-Tenho que entrar em contato com meu superior, ninguém me avisou de nada-.
-Peraí, onde fica a base do seu superior, meu chapa?-.
-Perto da Torre de Controle-.
-Então, você não tem mais chefe. Pode ir embora-
Aquele homem de olhos esbugalhados, expressão psicopata e rosto vdrmelho como um tomate apontou o polegar por cima do seu ombro, num sinal de ordem para ser cumprida e cair fora imediatamente.
No dia seguinte, logo cedo começavam a chegar os contingentes. Muitas pessoas acabavam sentadas no gramado. Para ficarem mais à vontade, tinham jogado esteiras, lonas, toalhas, até usavam os cartazes. Era uma manhã fria num clima de 'happening', os jovens sonhavam com uma nova ordem depois de tanta repressão passada, finalmente tinham votado num presidente de esquerda... mas qual era agora a situação com a chegada do líder do exílio, o criador do Partido, o condutor das massas que tinha sofrido golpe militar e desterro?
Isso conformava um grande mistério, as pessoas que imaginavam a esquerda no país achavam que tinham ganhado com a eleição de um candidato representativo que esperava a volta do Grande Mentor. Aí ele cederia o poder, estranho porque o General de esuqerda mesmo nunca tinha sido. Fora a sua esposa que tinha se tornado a protetora das classes mais baixas. As pessoas estavam com a emoção pressionando seus corações, não observavam as coisas dessa forma. Os jovens socialistas consideravam tudo isso algo importante, e com continuar militando, ocupando as ruas, tudo ia dar certo. O General inspirado no trabalho e as "forças santificadas' da líder de massas falecida e santificada 'protetora dos pobres', supostamente identificaria as necessidades do povo e todos iriam para casa sonhando com um país, a militância naturalmente marcaria o caminho ideológico onde seria reconstruída outra nova sociedade. Haveria um processo similar ao do Chile, eleições democráticas que deixariam na Argentina a pátria socialista sonhada no poder pelos seguidores da líder e seu marido "protetor". Assim sendo querendo chegar perto do modelo cubano com todo o idealismo que aquilo acarretava. Mas para tudo isso realmente começar a ficar sequer perto de acontecer deveria existir um líder de massas concreto, definido e esperado pelo povo, e um candidato herdeiro, não um velho patriarca. E esse lugar ficaria perigosamente vago mesmo durante a ditadura posterior argentina, onde um dos lideres da Junta Militar sonhava um dia com ser algo parecido a Peron. Ganhar eleições, se tornar popular. Aquele velho vício populista de direita de virar o 'César'. Mas isso nunca aconteceu, os militares dos anos 70 nunca conseguiram se tornar populares, e jamais conseguiriam. Havia muita bronca contida contra eles, as massas populares, os sindicatos, os empresários que os temiam, apenas muitas vezes fariam apenas seu trabalho e cumpririam um certo papel protagonista mas nunca se colocando muito a favor. Também tinham seus dias contados.
Era disso, da ausência de verdadeira liderança, que se tratava uma das discussões intelectuais daquele dia onde as pessoas se amontoavam cada vez mais até subir nos postes da luz da estrada. As massas se conduziam sozinhas como de maneira inconsciente. Mas era médio consciente e meio inconsciente, um processo complexo. Parecia também uma autoafirmação tribal, um processo quase antropológico: queriam saber quem era o verdadeiro líder das massas, seguindo as tradições das conversas de eternos órfãos políticos. Ninguém esclarecia de alguma forma categórica quais expectativas haviam arrastado as multidões ate ali, realmente a expetativa de ver o líder discursar era enorme. Era um sonho mesmo que levava as pessoas ali, ninguém sabia explicar nada mais naquela quarta feira 20 de junho. Passado e presente se misturavam.
Finalmente parecia tudo entregue a ter de confiar na militância, na presença. Sentir o alívio que finalmente um líder os conduzia para algum lugar. Crianças, jovens, velhos, todas as gerações aglutinadas num anelo e esperança de país queriam um condutor, sonhavam com imagens confusas de um passado estranho. Ele mesmo tinha perseguido e torturado as pessoas da esquerda nos anos quarenta, surido entre os militares golpistas, mas parece que ninguém queria lembrar essa parte. Por isso sa pessoas estavam ali, esperando por um líder que entenderia tudo isso e junto com eles repensaria o país. Votar na América do Sul dos 70 não era suficiente, havia que esperar quem sabe mais um pouco, mesmo ao relento. Melhor festejar.
O que representava exatamente todo aquele povo mobilizado numa celebração nacional? O que era que pretendiam festejar se nada existia de concreto ainda? Ninguém mesmo parecia se importar por isso, só queriam receber o líder em clima de festa representativa, aguardando algúm discurso magnífico e memorável. louvar um procer vivo latinoamericano espalhando orgulho e lenda.
Juan Carlos vestia uma blusa de gola enorme embaixo de uma jaqueta. Laura usava uma saia xadrez, meias de lã e botas, cabelo liso caindo sobre os ombros, fazia o sinal da paz com os dedos quando passou a câmera do cinegrafista amador. Sentada com os braços apoiados nos joelhos, no fundo cartazes da juventude estudantil peronista, dos ativistas Montoneros.
Usava até boina, uma moda daqueles tempos. As pessoas ao redor começavam a chegar em maior quantidade. Insuflados pelo estranho pacto tácito com aquele líder que voltava do exílio para conduzir um povo, ou pelo menos estar ali sempre que houvesse problemas, perto do povo... Mas o que chegaria na verdade não seria exatamente o líder experiente e conciliador. Chegaria a tormenta.
Na primeira linha das árvores já estavam à postos os atiradores -na maioria snipers argelinos- seriam denunciados como 'atiradores de elite comunistas'. Tinha até bases de madeira construídas para se colocar nas árvores, só que feitas dias atrás pelos encarregados da comissão de 'segurança' do evento.
Pessoas iam daqui para lá, enchiam os campos da região quase à toa, pessoas subidas em caminhões que pareciam que não iam aguentar. Um grande piquenique de gente exausta após anos de repressão e prepotência. Sai de repente algum raio de sol, naquela manhã de junho. O trânsito fica lento. Ônibus, lotações, o trânsito empaca porque tem multidões andando pela estrada também, marchando empurrados pela necessidade de viver uma esperança possível na América Latina moderna. Famílias, crianças, idosos, curiosos, afiliados, entusiastas, estudantes, militantes de esquerda, representantes dos bairros, organizações políticas e simplesmente um contingente enorme de pessoas curiosas de todo tipo.
Perto das onze e meia, começaram a se mostrar mais umas figuras de braceletes de segurança do evento, mas alguns deles portavam escopetas e automáticas, levavam correntes cobertas de mangueiras. Ninguém do gramado a cento e cinqüenta metros do palco acima da ponte da estrada sabia o que estava para acontecer, a chamada "juventude sindical peronista" ia querer controlar o palco à força. Embaixo do palco, e mais para atrás aqueles que seguravam os cartazes enormes não conseguiam ver a situação toda, Juan Carlos queria ir embora mas Laura se autodenominava "montonera teórica", e queria ver tudo bem de perto aquele dia, estava embriagada pela emoção do momento.
Em certo momento, alguns contingentes com faixas enormes dos grupos de esquerda de varias localidades chegaram até a parte traseira do palco e começaram a pular as grades que tinham sido colocadas formando um cerco em torno ao complexo blindado e as paredes que sustentavam as varandas do palco montado na Ponte do Trevo.
Mesmo não vendo esse episódio por acontecer do outro lado de onde eles estavam, ele não estava gostando do clima da congregação, alguma coisa não parecia normal, era alguma coisa fora o clima de festa que ele pressentia. Era uma confusão conseguir ver claramente quem ficava de frente para o microfone, se revezavam uma serie de personagens estranhos.
Numa hora, essa gente das brigadas sindicalistas anti-comunistas começavam a mostrar armas de alto calibre e levantaram as metralhadoras em sinal de vitória, exaltados, triunfalistas. Alguns daqueles caras mal encarados podiam ser muito cabeludos, e um deles era bem estranho, de olhar de gelo, quase alheio e imutável perante os gestos exagerados dos colegas.
Era um sujeito barbudo e cabeludo que mal falava espanhol, preferia falar francês. E estava com alguns amigos da legião aquele dia, mas os outros estavam à postos dando instruções aos francoatiradores locais com sotaque carregado. Fazia bastante frio, mas era muito divertido apontar para esses cordeirinhos inocentes indo ao matadouro. É claro que eram atiradores de elite, de algumas copas das árvores ouvia-se falar francês prestando atenção, eles provavam algumas lentes e miras para recolocá-las nos fuzis de alta precisão. Vieram com os capangas da segurança, o mais nervoso, com as pupilas muito dilatadas pelo uso de anfetaminas, disse ao guarda de um dos portões:
-Ouça, esses caras não falam bem espanhol e são amigos nossos que vieram hoje para nos apoiar, deixe eles à vontade, entendeu?- a voz rouca pelo cigarro e o café se arrastava. -Qualquer coisa, me avise que eu venho, vou estar lá do outro lado, tá vendo?- Apontou para o palco e a multidão, de costas para o bosque.
O dedo saiu da mão gorda da cor de pele de porco, de uma manga de sobretudo, por baixo vestia uma gravata enorme e uma camisa, pendurado de um cinto de couro preto, um revólver Colt nacarado, o cabelo com gel e penteado para atrás. Um verdadeiro "cowboy".
Ao estranho mercenário cabeludo gringo, depois de trabalhar para os caras da juventude nacionalista estudantil o queriam chamar primeiro de Léon Degrelle, mais ficou como "O Belga", e depois daquele dia nunca ninguém mais o recorda, salvo aquelas dezenas de testemunhas que o viram começar a atirar contra pessoas indefesas e sem intenções agressivas.
Pois é, foi ele mesmo quem se aproximou da borda da grade acima da cabine blindada, e começou a atirar contra as pessoas, nas primeiras descargas acertou no peito de um militante que morreu de hemorragia em vinte minutos. Ele alegou que o elemento portava um explosivo tipo 'coquetel molotov', mas ninguém viu esse tipo de arma em mãos daquela 'juventude socialista'. Acharam um 38 com outro moleque e o espancaram feio com canos de ferro, acharam o cara meio morto na rodovia Riccieri dias depois, o deixaram tudo arrebentado.
Outras pessoas foram feridas por aquele misterioso mercenário belga, mas também começaram a se ouvir outros disparos vindos das árvores, as pessoas corriam, se jogavam no chão. A situação começou a ficar esquisita mesmo, tão esquisita quanto as personagens bizarras presentes naquele dia nefasto.
Juan Carlos e Laura começaram a correr, em direção as árvores, nada entendiam, foram encurralados no fogo cruzado mais bizarro da historia: bandos da mesma tendência sob fogo intenso. Laura perdeu em um minuto todo aquele ar animado de militância empolgante.
No entanto, vários sujeitos que dominavam o palco recebiam da multidão embaixo um rapaz que pegavam dos cabelos. Logo depois davam uma surra fazendo uma roda de pancadaria, o conduziram para fora e o enfiaram num carro. Levaram o cara até o Hotel Internacional, que desde o dia anterior também tinha sido ocupado pelas forças de 'segurança'. Lá dentro ele ia apanhar de corrente e bastões até morrer num hospital do bairro Estevan Echeverría uma semana depois de hemorragia interna. Muitos iam apanhar e manchar as paredes com sangue aquele dia:
"Quantos comunistas tem ainda na floresta?"
Antes que ele respondesse a mangueira com a corrente dentro quebrava osso, rasgava músculo. Dentro do complexo blindado onde se pronunciaria o líder, um antro de horrores monitoreado por um aparelho que cumpria tarefas para-policiais e de tormento de opositores e assassinatos.
Na parte posterior do palco do evento, uma ambulância abriu as portas, tinha chegado de rê. Tiraram um cara do nada e o colocaram na parte de trás.
-Leva para o baixinho- Disse o sujeito para o motorista, que tinha uma ametralhadoura pendurada por cima do avental branco. Colocou a cabeça do prisioneiro dentro da ambulância, depois de dar um soco no rosto. Quase desmaiado, viu como fechavam as portas da ambulância. Tinha o nariz quebrado. Depois, no Hotel Internacional, quebraram de novo junto com o maxilar, com golpes de cassetete.
A coluna de estudantes da provincia de Formosa também recebeu fogo frontal naquelas horas, conseguiram se refugiar atrás dos tratores e máquinas 'caterpiller' das obras de montagem das instalações, assim as balas ricocheteaban nelas. Aqueles jovensdesprevenidos ficaram aterrorizadas detrás dos ferros. E o pandemonium continuava em campo aberto, jogados na grama Juan Carlos e Laura esperavam o tiroteio cessar, mas as facções dos mesmos bandos ainda atiravam uns contra os outros, acreditando estar lutando contra os comandos 'troskistas' que tentariam
assassinar o líder. Foi difícil para eles entenderem a gaffe que estavam cometendo, extremistas para a agitação mas não muito espertos para aplicar sua fúria. O radio soou com interferência, mas depois a voz do tenente podia se ouvir perfeitamente:
-"O palco está sobe controle dos nossos ou das forças do inimigo?"
-"Esta sobe controle total das nossas forças."
Mesmo assim os disparos continuavam a ser ouvidos passadas as 17:30hs. As pessoas começaram a voltar a casa como podiam, a festa tinha acabado. Para que atravessaram o rio, para que o sacrifício? Juan Carlos e Laura não conseguiam ainda sair do chão, ouvindo as balas repicando por perto. Ouvia-se alguma sirene de ambulância, se afastando. Pessoas passavam correndo, a mídia chocada e assustada não sabia o que ia ser dito no jornal da noite, e o líder estagnado mentalmente ouvia as superstições esotéricas de um psicopata que funcionava como conselheiro espiritual enquanto organizava uma nova guarda pretoriana para o instável governo, tecendo a teia da infamia. O fator caos reinava, não mais o juízo dos homens. Só faltavam os ratos saírem dos esgotos e passear pela cidade, os mortos se levantarem.
Bem, como era de se esperar mesmo, nenhum morto se levantou. Juan Carlos e Laura nunca voltariam para casa aquele dia. Conseguiram sair vivos da floresta, mas quase saindo do aeroporto, se depararam com seis integrantes das falanges sindicais, os nacionalistas que não queriam ver o país cheio de comunistas, para a formação "acadêmica" deles a culpa de toda desordem e barbaridade era desses peronistas a favor da pátria socialista. Foram rapidamente linchados como militantes montoneros junto com mais duas pessoas da juventude estudantil numa árvore de Ezeiza, que diziam te-los visto escondendo armas. Esses outros garotos militantes de esquerda -como se 'diziam' na verdade- eram dois coitados zé ninguém cansados de apanhar, rostos quase desfigurados com as correntes e manoplas de ferro. Um tinha quase perdido um olho, arrebentado entre as pálpebras sanguinolentas e inchadas como pêssego maduro. A corrente na mangueira fazia estragos, os caras da pesada as usavam já nos anos 50 nas docas, naquela rebeliãozinha abafada. Depois do trabalho de um dedo-duro qualquer agentes do sindicato vieram rápido, arrebentaram só um dos que faziam a greve, deixaram o cara dependurado no porão como exemplo. Os típicos cavalinhos de batalha dos fazedores de "putch" dos fascistas das republiquetas do Sul.
Por isso é que esses garotos em certa forma não tem culpa direta da morte de Juan Carlos e Laura. Só queriam respirar um pouco na tortura, era só acusar qualquer um, a dor era insuportável. Foi assim que aquele casal morreu à míngua, como se fosse provocado por uma estranha invocação demoníaca. Pela necessidade imediata de outros dois coitados arrebentados apontarem 'novos suspeitos'. Havia corpos por todos lados, empilhados emcaminhões nos estacionamentos utilizados da ACA. Os poucos dados oficiais apontaram um numero muito menor de mortos e feridos.
O líder tão esperado nunca apareceu na "recepção", e depois falou com a imprensa sem dar nenhum tipo de detalhes de nada, como sempre fazia, protegido pela áurea blassè de um mistério ambivalente.
Muitas pessoas acham que aquela quarta feira 20 de junho foi um dia memorável, mas não se recordam os motivos, como se aquele dia as mentes das pessoas tivessem sido atingidas por um raio invisível, um secreto sentimento comum que os fez esquecer dos acontecimentos infames e as conseqüências futuras, a implicância de todo aquele absurdo, e encheu de tristeza aqueles corações amedrontados que nunca veriam as verdades ser difundidas à tempo. Todos aqueles feridos e torturados que jamais iam dar queixa, os jornais oficiais falavam em conspirações sufocadas, os meios enchiam o espaço de noticias sobre acontecimentos inexistentes e potencialmente absurdos para dizer qualquer coisa que parecesse concreta e real. Ficaria como um grande pesadelo esquecido em massa. Um fantasma tao horrendo que ficou escondido no celeiro do "inconsciênte coletivo" por muitos anos.
Todas aquelas declarações patéticas na televisão...





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